rosa metálica

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A flor e a náusea

Essa poesia me espanta há alguns anos. Tomei contato a primeira vez com ela no livro “A rosa do povo”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Nesse momento que atravessamos,  2018, ano eleitoral, momento turbulento e sombrio, triste e também de fortalecimento de propósitos, ela retorna com força, fazendo muito sentido…

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

( Carlos Drummond de Andrade – grifos meus )

 

 

segunda pele


caparosametalica

Apresentação

Os vários ângulos da rosa

por João Cícero Bezerra

Paula Calaes com seu livro-poema, Rosa Metálica, constrói a imagem de um eu-lírico, Rosa, de substância metálica. Em cada poema, a flor, interna, experimenta a intensa transformação, por desilusão, de ser dura, inorgânica, como o metal. A rosa faz-se, a todo tempo, dura para não perder a forma (a ternura) de rosa. Faz-se assim por revelar sua dialética através da imagem, e não por meio de uma narrativa evolutiva ou trágica. A imagem da rosa metálica surge, decididamente, no segundo poema. E com esta máscara semântico-lírica, Paula percorre, inteiramente, o seu livro.

Contudo, deve-se atentar à espécie de imagem que se observa no livro. Desde o início, na Presentação (nesta apresentação intensificada como presente), a força figurativa do “traço” (substantivo e verbo) expõe o paradoxo do próprio poema: o ser orgânico, a rosa, e o ser inorgânico, a pedra (variação original do metal). A rosa é a menina. O metal é a máquina. A rosa é a delicadeza. O metal é a indiferença. A rosa é o amor. O metal é o dinheiro. Em torno da imagem da rosa metálica, a obra caminha pelo desvelamento do núcleo helicoidal de uma flor cheia de sentidos multiformes: a desilusão, a melancolia, a saudade, a nostalgia, a força e o aprendizado.

Na obra de Paula, a metamorfose da rosa é vista a partir de vários desdobramentos. A poesia de verso-livre, com rimas que lembram sonetos, vai, pouco a pouco, transformando-se, até tornar-se, na segunda seção do livro, haicais – forma poética de origem japonesa que valoriza a objetividade. Assim, a dicotomia cidade-campo, da primeira parte do livro, experimenta uma dicotomia mais extensa e continental: oriente-ocidente. O campo, o idílio. A cidade, o caleidoscópio. O ocidente, a rosa melancólica. O oriente, a rosa estóica.

O que nota-se, integralmente, na obra de Paula é a capacidade da linguagem poética de construir fenômenos (aparências) distintos e próximos. Distintos porque a cada momento uma tonalidade nova é apresentada. Próximos porque o mundo inteiro, com seus contrastes, cabem na imagem desta rosa metálica.

Por fim, deve-se atentar à seguinte dinâmica presente no livro da autora. Há uma narrativa sobre a desilusão amorosa permeando todos os poemas do volume. Entretanto esta experiência sentimental é a primeira camada de sentido trazida pela obra. Falar que trata-se de um livro sobre a desilusão amorosa é o mesmo que percebê-lo numa recorrência temática a vários poetas. A singularidade da obra está na amplidão do traço, isto é, na capacidade da poeta de girar, despetalar, abrir e fechar sua rosa metálica, trazendo, a cada poema, um novo ângulo à rosa, e, principalmente, observando, a cada ângulo, o sentimento da desilusão de modo mais amadurecido.

Rosa Metálica é um desenho verbal, cheio de tons e contrastes, sobre quão natural e antinatural é a desilusão amorosa.

O primeiro nascimento, como livro

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A manifestação de Rosa Metálica

Uma flor nasce da pedra. Pequenina, torta, mas realmente uma flor. Havia sido bordada no corpo da pedra, em ponto cruz. Entrelaçada no silêncio concreto.

Passa o tempo e a flor se desenlaça. Numa dança convulsiva, os fios se desatam.

A flor é uma rosa, milagre mortal vivo que nasce da pedra e se transforma em Rosa Metálica, no mundo urbano dos ofícios.

Rosa das artes, dos ofícios, rosa dos artifícios. Artificializada inevitavelmente.

A experiência de brotar da pedra ensina que nascer é uma alegria que dói.

Nas cidades, por ruas que se abrem, magnéticas como abraços, o entusiasmo da infância será devolvido. O tempo será reinventado.

Nas cidades: o vento,  a luz do dia, o bailado, a pipoca e a cantoria. Tudo isto entrará e soprará gentes criadoras, metálicas, condutoras de calor, de alegria.

O amor cotidiano vivenciado, experiência sem grades, translúcida, reluzente. Em letreiros luminosos passarão poesias, poesias, poesias, poesias, poesias e  poesias…

Todos os dias serão como a idade do ouro por conta do trabalho de poetas. A fé nos sinais, fé nos sonhos. A imaginação tornou-se ciente de ser mais que passagem. A imaginação é a matéria-prima dos sonhos e das transformações.

Tempo

Todo dia o tempo

oferece à rosa

o presente.

Cora a rosa, encarnada

e acolhe

o seu presente.

Assim que ela dança

ao calor do sol, à brisa do vento e

quando cai chuva…

Assim que anoitece com a lua

despetala ou floresce

quando o tempo pede.

Que o que anima a flor – ele adivinha

é o instante já,  o agorinha.

Assim que ela trança

o tempo em três:

o futuro é porvir

e o passado, semente.

Todo dia

o tempo oferece

presente.

Ser tão

flor de pedra no sertão 

na urbe, transmutação:

rosa metálica

Mar

praia do mar

a onda traz leva

mergulho n’água

Espelho

à noite urbe

chuva chovendo

espelho de asfalto

Música

velha loja de vinis

para a menina

música dos olhos